quarta-feira, 2 de maio de 2018

Quase lá


Era uma vez um sonho distante, quase inalcançável.

Você está nessa jornada há muito tempo, pensa. Está cansado de lutar, cansado de andar. As solas dos pés estão cheias de bolhas e seu estômago parece ter encolhido pela fome das coisas que você precisou abdicar até aqui. Sua cabeça dói constantemen
te e o peito acelera cada dia mais, movido pela ansiedade de que algo aconteça, de que uma ponte mágica surja diante de você, encurtando o seu caminho tão dolorido.

Mas a ponte não vai aparecer, e você sabe disso. Você precisa arranjar forças de onde já não existe e seguir adiante. Não adianta colocar a culpa no mundo, nas dificuldades que apareceram diante de você e que não consegue vencer; o sonho é seu, e de mais ninguém. Você o escolheu, e não o contrário. Logo, o preço é você quem terá que pagar.

Existe algo chamado preparação. Você não vai chegar ao fim da jornada enquanto não tiver passado com louvor por todos os testes de aptidão.

Não desiste, segura firme. Você está quase no olho do furacão e está com medo, eu sei. Mas quando a tempestade passar, com suas chuvas, vendavais e barulho, você olhará para o céu e encontrará o arco-íris. E saberá que o seu pote de ouro o aguarda, lá no final.


Eu sei que dói, que o corpo cansa e a mente faz sabotagens. Mas aguenta só mais um pouquinho. Você está quase lá. Hoje já falta menos do que ontem.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

[Resenha] As Vinhas da Ira - John Steinbeck

John Steinbeck foi um escritor americano. As Vinhas da Ira, escrito em 1939, lhe valeu o prêmio Pulitzer em 1940. Com muitas implicações políticas, o autor foi duramente criticado, sendo chamado, pejorativamente, de comunista. As Vinhas da Ira foi banida de inúmeras bibliotecas e chegou a ser queimado em praça pública pela população indignada.

O livro se passa durante a Grande Depressão, assim como Ratos e Homens, outro livro do autor que li. Oklahoma sofreu durante anos com o fenômeno climático Dust Bowl, o que prejudicou as colheitas. Junto disso, os tratores começaram a chegar e expulsar as famílias de arrendatários que viviam ali há várias gerações.

"Afinal, os donos das terras desembuchavam. O sistema de arrendamento, de divisão de safra, não dá mais certo. Um só homem, guiando um trator, podia tomar o lugar de doze ou catorze famílias inteiras. Pagava-se um salário pequeno e obtinha-se toda a safra. Era o que iam fazer. Não gostavam de ter que fazê-lo, mas que remédio? Os monstros, que eram os bancos, exigiam o seu tributo. E os bancos não podiam esperar mais." Pg. 38
Nesse cenário, Tom Joad é liberto da cadeia. A caminho de casa, encontra com Jim Casey, um antigo pregador que está desacreditado de sua fé. Juntos, partem para a casa dos Joad. Porém, ao chegarem a propriedade, a encontram no chão, tomada por algodão e completamente vazia. É Mulley, um antigo conhecido de Tom, quem chega e lhe explica a situação em que se encontram: todos da região foram embora, tentar a vida na Califórnia. A família Joad encontra-se nesse momento na casa de tio John, a algumas milhas do local, também se preparando para a partida.

Tom e Casey chegam a tempo da viagem. Somos, então, apresentados a numerosa família Joad: Pai, Mãe, Avô e avó; aos irmãos de Tom, Noah, Al, Rosasharn, Ruthie e Winfield e ao cunhado Connie, marido de Rosasharn, que encontra-se grávida. Eles vendem tudo que tem, incluindo animais, por quatro ou cinco dólares, embarcam em um caminhão velho os bens que podem levar e partem todos para a Califórnia com a promessa de prosperidade e trabalho.

Mas o caminho não é fácil, o dinheiro é pouco e a chegada desilude a todos. Como o posfácio da edição que tenho em casa diz, "O que a Califórnia pode dar a essa gente? (...) aos imigrantes que procuram trabalho, a Califórnia oferecia apenas ódio e violência."

A escrita de Steinbeck prende, nos faz ficar sem ar. Acho que o que mais gostei na obra foi o fato de o autor intercalar os capítulos que narram o êxodo da família Joad a capítulos que contextualizam a obra, nos explicando o momento em que estamos e porque eles estão passando por determinadas situações. Desta maneira, fica mais fácil de entrarmos na história, de a sentirmos. E como sentimos. Steinbeck é mestre em nos fazer sentir, em nos obrigar a ver a situação pelo olhar do outro .

"Os proprietários vendiam os alimentos a crédito aos trabalhadores. Um homem podia viver desse jeito, trabalhar e comer; e quando terminava o trabalho verificava simplesmente que ainda devia ao proprietário. Pg. 282

"(...) E os trabalhadores odiavam os Okies porque um homem esfomeado tem que trabalhar, e, quando precisa trabalhar e não tem onde, automaticamente trabalha por salário menor, e aí todos têm que trabalhar por salários menores." Pg. 283

Além dessa questão da escrita, teve uma personagem que ganhou toda a minha atenção e admiração. Essa personagem é Mãe, uma mulher que não mede esforços, que busca forças de onde não tem para sobreviver e manter a sua família viva e bem. 

Constantemente ela puxa as orelhas de Rosasharn e tenta trazê-la a realidade enquanto a mesma alimenta sonhos e torna-se um pouco egoísta a medida em que a criança em seu ventre cresce. Demonstra seu amor por Tom, o filho que foi preso. É transparente com ele ao afirmar que encontra forças nesse filho. E, mesmo em meio ao caos, encontra tempo para educar os filhos mais novos e peraltas, Winfield e Ruthie. Quando percebe que Pai, o líder da família, está fraquejando, ela não pensa duas vezes antes de tomar as rédeas da família. Não por se achar melhor do que ele, mas por o conhecer e saber que a sua revolta vai incentiva-lo a ir para frente, a não permanecer no marasmo.

"- Ele é um bom sujeito. E não se deixa abater. Esse negócio de me dar pancada não é com ele.

- A senhora só quis mexer com ele, não foi?

- Claro - disse Mãe - Imagina um homem que só vive preocupado, roendo o fígado. Não demora e ele desanima de todo e se deita e se deixa ficar sem poder reagir mais. Mas se alguém conseguir fazer ele ficar com raiva, a coisa muda. Ele endireita, garanto. Sabes, Pai não falou nada, mas está estourando de raiva. Agora ele vai mostrar, agora ele endireita." Pg. 436

As Vinhas da Ira não narra apenas a história da família Joad, mas sim a de milhares e milhares de famílias que, como eles, sofreram com a fome e a miséria durante a Grande Depressão. Entendi um período histórico importante que nunca tinha conseguido entender durante as aulas de história através desse livro, capaz de nos mostrar como é fácil perdermos a humanidade.

"As mulheres observavam os homens, observavam-nos para ver se agora, finalmente, eles estavam alquebrados. As mulheres permaneciam sem falar, observando. E onde um grupo de homens se formava, o medo desaparecia de suas faces, e a raiva tomava o lugar do medo. E as mulheres suspiravam de alívio, pois sabiam que assim estava tudo bem. Eles não estavam alquebrados; e não iam render-se enquanto o medo ainda fosse capaz de se transformar em ira." Pg. 540
Gostei tanto que não consegui parar de pesquisar sobre o livro. Se você tiver um tempinho, veja esse vídeo aqui, do canal Relivrando. Além da resenha, a Cristina faz um apanhado histórico muito bacana que vai te ajudar a entender a obra por completo. Vale muito a pena!

terça-feira, 24 de abril de 2018

Livros físicos ou digitais? Minha experiência com o App Kindle

Foi muito difícil aceitar o App Kindle na minha vida. Leio há bastante tempo e sou muito adepta do ritual: admirar a capa, passar a mão pela lombada, imaginar como ela vai ficar na estante, folhear e, por fim, cheirar. Convenhamos, desconheço um leitor que não sinta prazer em fazer pelo menos uma coisa dessa lista! O Kindle me priva dessas sensações e esse é o motivo que me fez olhar de cara feia pra essa ferramenta.

Foi um amigo meu que me incentivou a baixar. Argumentou comigo que eu leria bem mais, visto que o celular traz praticidade em termos de transporte que em um calhamaço não existe e que os preços eram bem mais em conta. Seduzida pela segunda fala, cedi. Ainda não me adaptei com ele, prefiro mil vezes os meus livros físicos, mas não me arrependi de maneira nenhuma por ter um Kindle no meu tablet e celular.

Motivos para ter uma conta na Amazon e baixar o Kindle no seu tablet/Smartphone:

1- O preço dos livros digitais na maior parte das vezes é mais em conta.
Quando eu baixei o Kindle no meu celular (na época ainda não tinha o tablet), estava curta de grana pra investir em livros. A diferença de preços entre físicos novos e digitais chegou em alguns casos a quase metade do valor. Foi o caso da compra de E O Vento Levou, que paguei 21,90 em uma promoção. Então s,e por alguma razão, você quer gastar menos em livros, o App Kindle pode ser um ótimo aliado.

2- Praticidade para pesquisar no Google e na Wikipedia

Exemplo de busca de palavra no dicionário
Com toda a certeza o que mais me agradou foram as ferramentas de busca e pesquisa. Se você der um clique em cima de uma palavra, vai abrir uma barrinha com o significado dela no dicionário e na Wikipedia. Eu não consigo seguir uma leitura se eu não conheço uma palavra; eu preciso procurar no dicionário e anotar ela numa notinha num canto do livro. O fato de eu nem precisar sair da tela pra procurar no dicionário me deixou muito satisfeita.

3- Você pode marcar seus trechos favoritos
Lista de quotes de As Pontes de Madison

É só clicar e arrastar sobre o trecho que você quer, selecionando-o. Abre uma aba com algumas bolinhas coloridas, você escolhe a cor que quer e pronto. E o melhor, no menu principal do livro, você consegue achar todos os trechos que marcou sem dificuldade nenhuma. Uma maravilha pra quem gosta de quotes, que é o meu caso.

4- Sempre vai ter um livro com você
Eu também tenho o costume de ter um livro comigo quando saio, mas emergências acontecem e você pode ser pego desprevenido. Outra coisa, se você estiver lendo um calhamaço, como E O Vento Levou, é muito mais prático tê-lo no Kindle do que carregar um livro desses na bolsa!

5- O Kindle faz download de amostras grátis!
E esse é o principal motivo de eu ter o Kindle. Leio muito mais livros físicos, é um fato! Mas o fato de eu ter uma ferramenta pra baixar amostras diminuiu muito a minha lista de abandonados. Um exemplo foi Dom Quixote: eu queria (e ainda quero muito) ler, mas não tinha certeza se conseguiria me adaptar a linguagem. Fiz o Download de uma amostra e percebi que pro momento em que eu estava vivendo, era inviável ler um livro como esse. Sem peso no coração, não comprei e passei para o próximo da lista.  Uso muito essa tática pra priorizar os livros que devo comprar.

Desvantagens do Kindle

1- A bateria do tablet/smartphone vai acabar
Essa constatação do óbvio não exige maiores explicações!

2 - Distração
Apesar de todas as vantagens, essa desvantagem pesa muito pra mim. Como estamos falando do aplicativo, não do leitor, o fácil acesso a outras mídias me distrai muito. Já fui muito viciada em redes sociais ao ponto de precisar fazer uma desintoxicação. Pra mim é muito fácil parar a leitura pra pensar e, quando me dou conta, estar com o Kindle fechado e o Instagram aberto. Fora uma sensação que eu tenho, bem particular mesmo, de não estar gravando o que leio no Kindle como eu deveria. Na minha cabeça, por causa das redes sociais, eu configuro que estar com o tablet e o celular na mão é estar procrastinando e passando o tempo. É uma sensação falsa, porque eu li E O Vento Levou pelo app Kindle no ano passado e toda a história ainda está na minha cabeça. Estou cogitando comprar um leitor Kindle mesmo (como o da imagem abaixo) mais pra frente pra diminuir essa sensação e pra não cair em tentação quando eu precisar ler pelo tablet/smartphone.
Kindle Paperwihite - Amazon

Não acredito que um dia eu vá parar de comprar livros físicos; gosto muito da sensação de vê-los, de tocá-los, de folheá-los... É barda, como diz o meu marido. Mas admito que todas as vantagens estão com o Kindle, principalmente quando não falamos do aplicativo, e sim do leitor propriamente dito. Quero conseguir usar mais essa ferramenta, afinal, a tecnologia pode sim nos ajudar a evoluir.

E Você? Já tentou migrar pros livros digitais? Como foi a sua experiência?

terça-feira, 17 de abril de 2018

[Resenha] Coração Satânico - William Hjortsberg

Coração Satânico foi escrito pelo nova-iorquino William Hjortsberg em 1978, sendo editado ininterruptamente desde então. Foi indicado ao prêmio Edgar e ganhou as telas do cinema - onde uma atuação exemplar de Robert de Niro me fez perder o fôlego. Esse foi um dos casos em que descobri que o filme era baseado em um livro apenas após assisti-lo.

Harry Angel é um detetive particular na cidade Nova-Iorque. É por sua profissão que conhece Louis Ciphre. Louis contrata Angel para encontrar Johnny Favorite, um cantor que está desaparecido há alguns anos. Harry aceita o trabalho, começando por um hospital onde, supostamente, Favorite foi internado após a guerra.

Porém, a tarefa que parecia fácil, visto que Johnny Favorite estava dado como morto, torna-se difícil e macabra. Na medida em que Harry avança, um rastro de morte e violência é deixado para trás. E, então, o leitor é envolvido por uma trama que envolve ocultismo, vudu e toda uma série de acontecimentos macabros e inexplicáveis.

Por já ter assistido ao filme, eu achava que conhecia o final. Mas, apesar de seguirem a mesma linha, livro e filme têm finais diferentes. Até mais ou menos a metade do livro, o leitor sabe que algo de muito estranho aconteceu com Johnny Favorite, mas ainda não tem a menor ideia do que está por vir. É quando Harry chega ao pianista Toots e, consequentemente, a jovem e sensual Epiphany Proudfoot que as coisas começam a ficar interessantes demais e é simplesmente impossível deixar o livro de lado. Outros dois personagens importantes são Krusemark, um magnata da indústria naval, e sua filha e ex-noiva de Johnny, Margaret. Além, é claro, do próprio Louis Ciphre, que se mostra mais intrigante e místico a cada aparição.

É um livro muito rápido e fluído; tem capítulos curtos e uma linguagem fácil de entender. É bastante descritivo, o que pode se tornar um pequeno enfado se você, assim como eu, não conhece Nova Iorque.

"Detetives são como motoristas de táxi. Nós incorporamos geografia ao trabalho." Pg. 191

Coração Satânico é o primeiro livro de terror que me lembro de ler, logo, as cenas narrando rituais e assassinatos me deixaram com o estômago um pouco embrulhado - o que eu acredito ser uma boa característica pra quem gosta do gênero. Sobre o final, bem, esse é de tirar o fôlego. Valeu a pena cada linha que li até chegar a ele.


Uma observação que vale ser feita: essa edição que eu ganhei de presente é da Darkside Books. Eles capricharam muito nela, a capa dura é linda e toda a edição interna é impecável. Simplesmente maravilhosa!

terça-feira, 10 de abril de 2018

[Resenha] Ratos e Homens - John Steinbeck



John Steinbeck foi um escritor americano. Recebeu o nobel de literatura em 1962. Ratos e Homens, transportado para o cinema e o teatro, foi escrito em 1937 e narra a história de dois trabalhadores rurais que migram pelo interior em busca de trabalho durante a grande depressão.

George e Lennie são dois companheiros de viagem de longa data que trabalham de fazenda em fazenda, quase nômades. Tem o sonho de ter seu próprio acre de terra, com uma vaca, uns porcos, uma boa horta e, é claro, coelhos para Lennie cuidar.

Lennie tem problemas mentais e George é o mais próximo de família que ele tem. Grande e desajeitado, não pode ver coisas bonitas ou pequenas sem que queira lhes fazer carinho o que, por consequência, acaba por causar estragos, como o rato morto que trás consigo no começo do livro. Na fazenda, Lennie desperta a inimizade de Curley, o filho do dono da fazenda que é puglista e recém casado. Porém as coisas se tornam melhores com a amizade de Candy e Crooks, que adotam o sonho da terra. Com o dinheiro de todos, a pequena fazenda com os bichos poderia ser comprada.

Ao passo em que Lennie está sempre metido em confusões, George pega toda a responsabilidade para si. Constantemente, precisa ser o cérebro, suas atitudes muitas vezes podendo ser questionadas pelo leitor. Mas, ao final do livro, o coração de George se prova leal a Lennie. Ele só faz o que precisa ser feito, afinal.

Ratos e Homens é um livro curto, li em dois dias pelo Kindle. Flui rápido e é bastante objetivo. Talvez a linguagem extremamente coloquial incomode alguns leitores, embora eu tenha achado essencial para a caracterização e ambientação do livro. A história ficou muito real e mais fácil de imaginar dessa maneira.

A obra trás na essência o chamado "sonho americano". Durante grande depressão, esse tipo de trabalho de Lennie e George era bastante comum: os trabalhadores ficavam em alojamentos, trabalhavam em grandes fazendas por um ordenado miserável e tinham pouca coisa além da roupa do corpo. Logo, desejar ter um lugar próprio, uma fazenda em que pudesse cuidar da sua própria plantação, dos seus animais e determinar os seus horários de trabalho era algo muito comum, e, também, difícil de se conquistar.

No caso de Lennie e George, as coisas pareceram ficar fáceis quando Crooks e Candy compraram o sonho da terra. Mas a tragédia sempre permeia esse tipo de sonho impossível, e com eles, não foi diferente. Temos um final revoltante, capaz de levar qualquer um às lágrimas. Steinbeck nos força a reflexão, escancara pra gente a verdade nua e crua do capitalismo. Troque as fazendas pelas fábricas de hoje e, facilmente, temos um cenário muito parecido.


"Ocê tinha que fazê isso, George. Ocê tinha que fazê."